Provavelmente, mais um textinho clichê de um professor

Nunca quis ser professora. Queria ser promotora. Depois, jornalista.

Aí finalmente descobri que, nisso tudo, eu gostava mesmo era de prestar atenção ao que os outros diziam. E dizer, com um jeito só meu, o que eu mesma dizia. Era de brincar com as palavras, as minhas e as dos outros, aquilo de que eu mais gostava.

Então resolvi fazer vestibular para Letras. Passaria fome, segundo a minha mãe, que deve ter sonhado comigo construindo peças que defenderiam pessoas inocentes, ou assinando uma coluna sobre qualquer coisa em algum jornal local ou revista de nível nacional. Mas eu queria estudar português.

Profissão de fome ou não, achei que minha mãe (e meu pai, se fosse vivo à época) deveriam agradecer que, pelo menos, eu gostava de estudar alguma coisa. (Pior seria se eu não tivesse esse interesse por nada, né?) Daí eu não passei na seleção para a UFPE e foi um susto para todo mundo que convivia comigo. A menina das redações brilhantes “levou pau” com uma redação, modéstia à parte, brilhante, mas que fugiu parcialmente do tema. Que pena.

Eis que, um dia, pouco depois dos resultados da UFPE, minha mãe adentra o meu quarto e me diz: “Quer fazer Letras, né? Então se levante, vá estudar, porque você vai fazer a seleção para a FAFIRE.” Que ódio que eu tive! EU? NUMA FACULDADE PARTICULAR? Impossível. Mas minha mãe disse: “Se é isso que você QUER, não interessa a faculdade. Vá e faça bem feito.” Fui e fiz bem feito.

Mas não queria ser professora. Nem fazer a prática de estágio eu queria, para não ter que me “trocar” com adolescentes desgovernados e interessados apenas na futilidade que é pertinente à idade. Só que, pra fazer o curso bem feito, eu precisava do estágio. Eis que tenho um encontro com uma 6ª série. Logo na porta, um menino me recebe e me diz: “Tia, tu é tão cheirosa!” (Já ganha parte do coração, né?) Durante a aula a que eu assistia, aquela 6ª série se comportou de maneira super participativa e, já há algum tempo, creio que aquele comportamento participativo foi só para impressionar a estagiária novinha e cheirosa que os observava.

Aí não teve outra. Voltei pra casa e disse: “Mãe, eu quero ser professora de 6ª série.”

Esse era um plano, mas um plano “mais pra frente”, porque eu queria fazer uma especialização, talvez um mestrado, por aí vai. Mas fui convidada para ensinar na escola em que eu cresci, a mesma escola onde me apaixonei pela 6ª série.

No primeiro dia de aula, o primeiro encontro com a 6ª série do ano seguinte. Um caos. Ao fundo da sala, um aluno estendia um cartaz: “Estou aqui a contragosto” e, a cada 5 minutos, alguém perguntava as horas. Ai, que arrependimento!

Mas, na aula seguinte, um aluno espreitava à porta. Ao me ver, ergueu a cabeça e disse: “É a professora, é?”. Sorri, concordando. Ele se virou para a sala e deu um grito: “SENTA, QUE CHEGOU A PROFESSORA.” Todos sentaram e fizeram silêncio. Após o meu “bom dia” e antes mesmo de eu me apresentar, esse mesmo aluno se levantou, pediu a licença para a palavra, olhou pra mim e disse: “Professora, sei nem o que a senhora ensina, mas tu é bonita pra caramba.”

E aquela 6ª série por quem eu me apaixonei me deu muito trabalho na 7ª. A 6ª que me recebeu mal me fez uma das festas surpresas de aniversário mais bonitas que eu já tive. As minhas turmas já quiseram me matar, mas também já quiseram se casar comigo. Já me deixaram doente de estresse aos vinte e muuuito poucos anos. Mas, de todo coração, todo estresse e todo desgaste físico e emocional se apagam quando a gente para e pensa que o “ser professor” é um processo de constante descoberta, mas que, mais do que tudo, nos põe diante de pessoas de corações maravilhosos, capazes de te arrancar uma lágrima de raiva, mas de te fazerem o coração chorar de tanta alegria.

Talvez as reações não sejam as mesmas quando a velhice invadir a minha casa, mas, quando a hora chegar, eu continuarei imensamente grata a todos, incluindo aqueles que nunca me acharam bonita, ou simpática, ou inteligente, ou capaz, ou professora. Terei sido jovem, e feliz. E continuarei vibrando cada vez que um aluno ou ex-aluno se dirigir a mim para contar os seus feitos. Sou “novinha”, eu sei, mas já sou parte disso tudo.

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5 comentários sobre “Provavelmente, mais um textinho clichê de um professor

    • anoca disse:

      Pri, eu queria ter uma profissão diferente a cada dia, sabe?
      Tipo segunda-feira é dia de ser professora; terça, fotógrafa; quarta, cozinheira; quinta, maquiadora; sexta, cantora de brega; sábado, babá; domingo, blogueira. :P

      Algo tipo isso, porque, como qualquer mortal, não é todo dia que eu topo encarar uma sala de aula (mas encaro, né?). No fim das contas, é como eu disse: é muito bom ser ainda jovem e já ter feito alguma diferença na vida de tanta gente.

      É massa! <3

    • anoca disse:

      Sempre que precisar, pode “me aperrear”! :)
      Sempre que eu puder, vou esclarecer as dúvidas
      Sempre que eu não souber, prometo sempre pesquisar, correr atrás de uma boa resposta.

      :*

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